sábado, 10 de abril de 2010

Ensaio: O descarte socialmente aceitável

Quando uma calamidade pública assombra uma cidade ou até mesmo uma nação inteira, alterando sua organização social estabelecida - causando transtornos diversos até o desenrolar máximo que é a morte – percebemos, logo assim que se restabelece uma ordem mínina sobre o caos, o surgir da solidariedade.
Esta, com mantimentos de diversos gêneros, desde higiene pessoal ao básico e elementar do matar a fome. Bem, doamos aos que tinham, mas perderam, pois consideramos que “poderia ter sido eu”. A pena, motivadora desde por alguns, por outros, fatores religiosos: melhorar o “Karma”, “Garlaldão” ou até “elevar sua espiritualidade” se faz presente. Porém, muitos, maioria talvez, seja para ter sua consciência limpa ante ao consumo desenfreado que vivemos, “alguns vivemos”. Creio que o doar, por vezes, seja assim, pura e simples, consciência limpa. Vejamos que doamos o que não nos serve mais, ou pelo menos o que não iremos mais consumir. Por isso, divago sobre o consumo da solidariedade do descarte socialmente aceitável, na afirmação que doamos aos que “tinham”, aos que “nunca tiveram”, estes não nos importamos. Ou seja, nos solidarizamos aos que outrora “tinham”, na idéia do “poderia ter sido eu”, esquecendo dos que nunca “tiveram”, e mesmo assim doando o que não iríamos mais usar, ou não iríamos consumir.
Constato isso, hoje em Niterói, nos diversos “Morros dos Bumbas” que ocorreram em várias áreas de nosso município, quando não mais se arrecada roupas velhas, usadas. Somente alimentos, que não podemos descartar como usado, por questões tróficas. No máximo, doar o que não iremos consumir. Hoje em diversos postos de arrecadação em suas portas havia – Não precisamos mais de roupas, somente alimentos. Bem, em uma sociedade baseada no consumo, nos sobra “roupas” descartáveis do consumo do novo, repassadas como descarte socialmente aceitável aos que um dia tiveram, hoje não mais tendo, por questões de calamidade.
Não refuto a solidariedade, sem esta, os que tiveram, mas que hoje não mais tem do “poderia ter sido eu” não teriam o que vestir e comer, mas devemos nos ater, também, aos que nunca “tiveram”, esquecidos todos os dias -nem lembrados são nas catástrofes- pois nunca tiveram nada. Sobram roupas usadas, descartadas pelo socialmente aceitável – aos que “tiveram”- e faltam, alimentos- de todos os dias – aos que “nunca tiveram”.
Rafael dos Santos Brasil Cal

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