terça-feira, 27 de abril de 2010

Com o aquecimento global, geladeiras viram sonho de consumo dos ESQUIMÓS


Renato Grandelle
RIO - Uma velha máxima, que denotava algo praticamente impossível, ganhou contornos reais nos últimos meses: vender geladeira para esquimó deixou de ser absurdo para tornar-se até desejável. Assustado com as mudanças climáticas, o povo do Ártico testemunha a redução de sua temporada de caça, quando o gelo flutuante é firme e permite incursões atrás de focas e baleias. Com menos tempo para buscar alimentos, é preciso armazená-los por mais tempo. Os tradicionais celeiros subterrâneos dos vilarejos não têm cumprido esta missão: muitos cedem ao calor crescente e, assim, deixam todo o estoque estragar. Chegou a hora de recorrer aos eletrodomésticos.
- É um paradoxo. O Ártico deveria ser frio e escuro de novembro a maio, e agora nós precisamos de freezers - lamenta, em entrevista por telefone de Nuuk, na Groenlândia, Aqqaluk Lynge, vice-presidente do Conselho Circumpolar Inuit (CCI) naquele território.
Além da ilha, o CCI reúne esquimós do Alasca, Canadá e de Chukotka, uma região autônoma no norte da Rússia. São, ao todo, 160 mil pessoas. Apesar disso, o pedido por freezers não ecoou na Conferência do Clima realizada em Copenhague, quatro meses atrás. Os aparelhos não chegaram ao Ártico até hoje.
O aquecimento global não provoca estragos apenas na despensa dos esquimós. A cada aumento de 1 grau Celsius nos termômetros, o Ártico perde 1,4 milhão de quilômetros quadrados de gelo flutuante, uma área equivalente ao Nordeste brasileiro. Se a temperatura média global aumentar 2 graus, algo já considerado inevitável, no Ártico ela subiria até três vezes mais.
Precisamos de infraestrutura. Grandes freezers comunitários contribuiriam para os novos padrões de caça, que só nos permite procurar alimentos poucas vezes por ano
Se os números parecem distantes, aos fatos: habitada há quatro séculos, a comunidade de Shishmaref, no norte do Alasca, foi forçada a se mudar, devido ao derretimento do solo congelado ao longo de sua costa. O litoral, assim, fica mais vulnerável a tempestades e à erosão, comprometendo casas e o sistema hidráulico. A dificuldade para encontrar rotas seguras também se repete em numerosos vilarejos.
- A organização das comunidades, a temporada de caça, a migração dos animais... tudo está mudando - exaspera-se Lynge. - Há alternativas como a pesca comercial, mas ainda não as conhecemos.
Em Copenhague, a porta-voz do CCI, Violet Ford, também ressaltou a falta de recursos para pedir ajuda a seu povo:
- Precisamos de infraestrutura. Grandes freezers comunitários contribuiriam para os novos padrões de caça, que só nos permite procurar alimentos poucas vezes por ano - disse, durante a conferência.
Violet sublinhou que as privações não seriam de um ou dois grupos, mas de toda aquela sociedade. Para os esquimós, a comida não é do caçador, mas de quem precisa. Pedir permissão para beber um simples copo de suco é uma ofensa. Quem sente fome ou sede deve saciar sua vontade sem dar satisfações.
- A comida deve ser compartilhada livremente - explica Edmund Searles, antropólogo da Universidade de Bucknell, nos EUA, e especialista em esquimós. - Essa divisão dos alimentos dá coesão social do grupo. Sem esse mecanismo, a sociedade entra em colapso.
Mil anos atrás, a elevação das temperaturas fez os caçadores esquimós migrarem para o norte, mesmo caminho seguido pelas baleias. Agora, segundo Searles, o povo do Ártico pode se ver obrigado a uma nova mudança radical.
- O Ártico é como a Amazônia: um local imenso, pouco habitado e imprescindível para o clima do planeta - compara Aqqualuk Lynge. - Enquanto mantivermos nossa paisagem gelada, ótimo. Mas essa missão tem sido difícil de cumprir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário